
Eu morava na maior casa da rua desde pequena, era uma mansão gigante. No terceiro andar ficavam todas as cinco suítes e a biblioteca, no segundo andar se encontravam as duas salas com televisão, a sala com videogame, o escritório e a sauna. O primeiro andar era reservado para a gigantesca cozinha, a sala de jantar, o bar e por fim os quartos dos empregados. Por mais que eu quisesse e sonhasse em dormir no terceiro andar o único lugar que eu sempre pertenceria seria o primeiro andar... Sim, você leu certo, meu quarto ficava junto com o de todos os outros empregados. Eu tinha apenas um ano de vida quando fui deixada na frente da porta dos Morgan, a família mais rica da cidade. Qualquer um que ouvisse o início dessa história diria que eu sou uma garota de dezesseis anos muito sortuda, mas esse "início" não durou por muito tempo. Assim que completei dez anos passei a ajudar nas tarefas da casa. Adelaide, a cozinheira, e Anette, uma das empregadas, sempre foram as responsáveis por mim, mas todos os empregados da casa me adoravam e me protegiam das maldades de Fleur, a esposa do Sr. Vince, e Cloe, a filha mais nova do casal. As duas pareciam ver prazer em me tratar mal e sempre deixavam claro que eu era apenas uma das empregadas. Dona Fleur e Cloe eram muito parecidas, ambas possuíam cabelos longos e escuros, pele perfeita, dentes bem alinhados e uma personalidade horrível. Contudo, nem tudo é um pesadelo naquela casa. Owen, o filho mais velho do casal, é o que deixa meus dias um pouco melhores. Ele é um garoto de dezessete anos engraçado e cheio de vida, de vez em quando eu o observo fazendo suas tarefas diárias e a noite eu me pego pensando em seus intensos olho verdes ou em seu cativante sorriso. Não é que eu esteja apaixonada por ele - até porque nós sequer nos falamos -, mas alguma coisa em seu olhar e no modo como ele fica incomodado quando a mãe e a irmã me maltratam fazem com que eu me sinta encantada por ele.
Em uma bela noite, na hora do jantar, Fleur me chamou e pediu para que eu me aproximasse dela.
- Olhe para esse garfo - disse ela apontando o utensílio para o meu rosto.
A prata estava perfeitamente polida, a não ser por uma pequena mancha em um dos cantos.
- Desculpe dona Fleur, mas há algo de errado com o seu garfo? - perguntei da maneira mais doce possível.
- Você é cega ou relaxada mesmo, Emily Qualquer Coisa? - disse ela de maneira grosseira.
O veneno pingava de seus lábios cheios de botox e meu coração ficou descompassado com a menção daquele velho apelido. Emily Qualquer Coisa era o jeito como Cloe, Fleur e a maioria das pessoas na minha escola me chamavam. Isso porque ninguém sabia meu sobrenome, nem mesmo eu.
- Mãe - repreendeu Owen.
- Quieto querido - disse ela "carinhosamente" - Vai ficar parada aí ou vai trocar meus talheres?
Demorei alguns segundos para recuperar minha voz.
- Sim senhora, irei trocar seus talheres - disse e saí da sala de jantar rapidamente.
Pedi para que Anette levasse o garfo para que eu não precisasse entrar lá novamente. Depois do jantar dos Morgan me retirei e fui tomar um pouco de ar na varanda, como sempre vazia.
- Sinto muito pela minha mãe - disse uma voz masculino e jovial que eu sabia pertencer a Owen, eu não sabia há quanto tempo ele estava ali me observando.
- Não se preocupe senhor Owen - falei olhando para os meus pés.
- Me chame apenas de Owen, Emily.
Era a primeira vez que eu ouvia ele dizer meu nome, e por alguma razão eu gostei daquilo. Com o meu silêncio Owen se aproximou.
- As estrelas estão lindas hoje, não acha? - disse ele olhando para o céu.
- Sim, elas sempre estão, basta prestar bastante atenção.
- Você vem toda a noite aqui fora? - perguntou ele curioso.
- Sim, é meu único momento de paz antes de dormir - falei ainda olhando para as brilhantes estrelas.
- Sinto muito que seja assim - disse Owen com tristeza na voz,
- Não se desculpe Owen - seus olhos brilharam quando ele me ouviu pronunciar seu nome.
Continuamos a olhar para o céu em silêncio por mais alguns minutos. Quando olhei para o rosto de Owen vi a tristeza estampada em seus olhos. Talvez eu não fosse a única a ser maltratada pelas duas megeras da mansão, eu nunca havia pensado na possibilidade de o garoto ao meu lado não ter uma vida perfeita, mas olhando para seus olhos eu conseguia sentir toda a mágoa e a solidão de se viver em uma família que não se amava verdadeiramente.
- Você é feliz aqui? - perguntei sem pensar.
- O que? - perguntou ele surpreso.
- Esqueça, falei sem pensar, me desculpe.
- Emily - disse ele virando meu rosto na sua direção.
Seu nariz estava a centímetros do meu e sua mão acariciava de leve meu queixo. Olhei para os seus lábios e uma vontade intensa de beijá-lo me invadiu. Owen umedeceu os lábios e chegou mais perto. Uma fina camada de ar no separava e eu conseguia ouvir as batidas aceleradas de seu coração. Inspirei seu cheiro e me deixei cair em seus braços. Owen me segurou pela cintura e me aproximou ainda mais, nossos lábios quase colados.
- Tire suas mãos imundas do meu filho! - gritou uma mulher histérica.
Owen e eu nos afastamos com o susto, mas o que eu mais queria naquele momento era enfiar o rosto em seu peito e esperar que aquele pesadelo acabasse.
- Quem você pensa que é para seduzir meu menino? - perguntou Fleur.
- Mãe, vamos entrar - disse Owen engolindo um seco.
Fleur lhe lançou um olhar de repulsa e se aproximou rapidamente de mim. Perto dela eu me sentia minúscula e patética.
- Você é apenas uma distração para Owen enquanto a namorada dele não está na cidade - disse ela tentando me machucar - Não pense nem por um segundo que ele se importa com você, querida. Você é apenas um rostinho bonito.
Olhei para Owen a fim de confirmar o que a mãe dele dizia, mas seus olhos estavam voltados para o chão. A vergonha me inundou e eu me senti patética por pensar que ele gostava de mim.
- Agradeço pelo elogio - falei sem conseguir me conter.
O tapa na cara que recebi a seguir me derrubou no chão e me deixou atordoada. Coloquei a palma da mão no lugar onde havia recebido a agressão e com o canto do olho pude ver a expressão de horror e desespero na cara de Owen.
- Nunca mais responda para mim, seu lixo! - gritou ela - Vamos Owen, entre.
- Mas... - começou ele.
- Agora!
Os dois se retiraram e me deixaram caída no chão com o rosto coberto pelas lágrimas. Eu não sabia o que pensar. Owen parecia tão atencioso e preocupado, mas se sentiu culpado com as confissões da mãe. O que eu deveria pensar? Será que aquele maravilhoso garoto de olhos verdes e sorriso cativante era apenas mais um aproveitador? Ou será que por trás de toda a perfeição ele escondia um menino ferido e sozinho precisando de carinho? Eu não sabia a resposta, mas com certeza iria descobrir.
P.S.: Deixem seus comentários. Gostariam de ler mais aventuras da Emily e do Owen?
