Flexionei os braços novamente e puxei meu corpo para cima, ultrapassando a barra de exercício. Todos os meus músculos tremiam e foi impossível conter um gemido de dor. O barulho agoniado chamou a atenção de Theo. Vi seu corpo forte se aproximar de mim. Engoli em seco. Seu rosto ficou a centímetros do meu, deixando clara sua expressão de descontentamento. Parei de respirar e fechei os olhos, não conseguiria ficar olhando para ele.
- Você não precisa fazer isso - sussurrou Theo.
Abri os olhos confusa e fui surpreendida por seu olhar suave. Um misto de emoções me inundou, dentre elas a raiva. Eu precisa sim fazer aquilo, porque ninguém ali iria me proteger, apenas eu mesma. Bufei em resposta e voltei a flexionar os braços.
- Isis - disse ele de maneira quase suplicante, me fazendo vacilar.
Soltei a barra e em segundos meu corpo já estava no chão, a risada de Jackie chegou até mim e machucou meu ouvidos, a raiva me dominou. Apoiei as mãos no chão, ignorando a dor que fazia meu estômago se revirar, e tentei me levantar. Porém, antes de conseguir realizar a ação, Theo capturou meu corpo e jogou por cima do ombro.
- A magrela se machucou com a queda, vou leva-la até a enfermaria - disse Theo, me tirando do sério.
Jackie soltou outra gargalhada. Me debati e soltei todos os palavrões que conhecia enquanto Theo me carregava como se eu não pesasse nada. Nos afastamos do campo de treinamentos e seguimos em direção às cabanas. Eu não precisava ir até a enfermaria e também não precisava da ajuda de Avery. Continuei socando suas costas até minhas mão doerem, era incrível ele não estar sentindo dor.
- Não adianta fazer isso, só vai se cansar ainda mais - disse ele calmamente.
- Eu não preciso que você me carregue, eu sequer estou machucada. Me solte! Eu não quero ir para a enfermaria, seu brutamontes! - gritei.
- Não estamos indo para a enfermaria.
A frase me calou. Se não estávamos indo para a enfermaria, aonde estávamos indo? Um arrepio percorreu minha espinha e minha boca ficou seca. Olhei em volta e percebi que nos afastávamos das cabanas, eu não conseguia ter uma visão do que estava a nossa frente e aquilo me assustou ainda mais.
- Theo - chamei com a voz trêmula - Para onde estamos indo?
- Pare de fazer perguntas, você fica ótima de boca fechada.
Me indignei com seu comentário e soquei novamente suas costas, arrancando uma risada controlada dele. O som foi como música para meus ouvidos, o que me deixou ainda mais emburrada. Cruzei os braços e esperei. Poucos minutos depois Theo me colocou sentada em um amontoado de feno e ficou alguns passos mais para trás.
- Estamos em um estábulo? - perguntei olhando em volta.
- Sim, estamos na parte de trás do estábulo, para ser mais específico - explicou ele.
Observei o lugar. Ao longe uma cerca delimitava o fim do centro de treinamentos. A grama era de um verde vivo e o campo era aberto, propiciando uma vista maravilhosa das árvores e do céu. Me escorei na parede de madeira velha e suspirei, estar ali era como estar em mundo só meu, longe dos problemas que agora eu enfrentava.
- É lindo - falei, mais para mim mesma.
Voltei a fitar Theo e percebi que ele me analisava de braços cruzados. Seu olhar desceu até a minha boca, contornou meu queixou e continuou descendo até minhas mãos, seus olhos se arregalaram e meu rosto se incendiou.
- Está machucada - disse ele se aproximando e pegando minhas duas mãos.
Olhei também e vi o que tanto lhe incomodava. Bolhas decoravam as palmas das minhas mãos e elas pareciam estar em carne viva, eu havia sentido dor, mas não sabia que estavam tão ruins assim.
- Não se preocupe, Avery, vou ficar bem.
Theo largou minhas mãos e fitou meus olhos, seu olhar parecia o de alguém ferido.
- Eu disse que você não precisava fazer aquilo. Você não é forte o suficiente e não está pronta - disse ele severamente - Isis, você viu o quão machucada pode ficar. Aquela surra não lhe ensinou nada, garota?
Levantei, ficando na altura de seus ombros, e empurrei seu corpo musculoso, que não saiu do lugar.
- Já chega! Quem você pensa que é?? Estou cansada disso! Eu fui humilhada e já apanhei, você fez alguma coisa para impedir isso? - acusei, batendo em seu peito - Não! Não fez! Então não me venha com essa história de que eu não preciso fazer isso, porque eu preciso! Eu vou treinar e vou mostrar para vocês que não deveriam ter mexido comigo. Eu vou me proteger, já que você não é corajoso o suficiente para fazer isso!
Seu rosto enrubesceu de raiva e seus punhos se fecharam. Engoli em seco. Xingar Theo não havia sido uma ideia inteligente. Avery agarrou meus braços com força e me empurrou contra a parede de madeira. Meus pés afundaram no feno e meu coração afundou no peito. Eu estava com medo, estava apavorada. Fechei os olhos e esperei pelo inevitável. Mas antes de conseguir evitar, o impensável aconteceu.
- Você é impossível! - as palavras de Theo vieram carregadas de emoções que eu já conhecia: raiva, confusão, paixão.
Abri os olhos a tempo de ver seu rosto se aproximando. Seus lábios se chocaram contra os meus, fazendo com que arrepios descessem pelas minhas costas. No começo a surpresa me paralisou, mas logo o beijo foi se tornando cada vez mais urgente. Seus braços puxavam minha cintura e minhas mãos passeavam pelo seu pescoço. Naquele instante tudo desapareceu, tudo fez sentido. Os sentimentos confusos que eu tinha eram os mesmos que os de Theo. Um pedaço da muralha que cercava meu coração se desfez, me deixando um pouco mais vulnerável. A brisa suave balançou meus cabelos e envolveu nossos corpos. Seu cheiro de alfazema chegou até mim e perturbou meus sentidos. Era bom demais para ser real. Era perfeito demais para ser humano. Mas ele era, e estava ali, a um suspiro de mim. Nos afastamos com dificuldade e Theo segurou meu rosto com as duas mãos.
- Me desculpe, mas eu precisava fazer isso.
- Não se desculpe, Theo.
Seu olhar brilhou e um sorriso se formou em seus lábios. Ele era ainda mais lindo sorrindo.
- Gosto quando você me chama de Theo. Avery é distante demais, algo que eu não quero de você.
Foi a minha vez de sorrir. As borboletas dançavam animadas no meu estômago e naquele momento, olhando para o rosto de Theo, eu percebi que o inevitável havia acontecido: eu estava me apaixonando por Theo Avery.
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