Abri os olhos com força, meu coração batia acelerado e minha mente parecia um nevoeiro. Minha bochecha pressionava algo úmido. O cheiro de orvalho e terra molhada invadiram minhas narinas, fazendo a névoa em minha cabeça se movimentar, como uma sensação de Déjà Vu. Me sentei lentamente, as folhas esverdeadas farfalhavam em sincronia com os meus movimentos. O sol começava a surgir no horizonte e os passarinhos já faziam barulho, se preparando para um novo dia.
Galhos, em algum lugar atrás de mim, estalaram, fazendo com que meus sentidos se aguçassem, preparando meu corpo para uma fuga. Consegui dar apenas alguns passos antes de ouvir uma voz castigada pelo tempo.
- Não precisa fugir, minha filha - disse um velhinho.
Seus olhos eram de um azul quase cinza, rodeados por rugas, os cabelos já não tinham cor, uma barba, também branca, descia até seu peito e suas roupas eram simples, de um marrom claro.
- Quem é você? - perguntei cautelosa.
- Você não sabe? - disse ele, parecendo curioso.
Analisei-o dos pés a cabeça e percebi que trazia consigo um velho cobertor avermelhado, que parecia ser tão velho quanto ele. Eu com certeza não o conhecia.
- Tudo bem criança - disse ele paciente - Agora, venha comigo - falou levantando o cobertor - Você não pretende ficar andando por aí desse jeito, não é?
Fiquei confusa por alguns segundos, desci o olhar pelo meu corpo e percebi que aquilo que eu usava não chegava nem perto de ser uma roupa. Caminhei com passos apressados até o velhinho e agarrei o cobertor de suas mãos, enrolando-o em meu corpo. O senhor começou a se afastar.
- Você não me disse seu nome! - falei alto para que ele me escutasse.
Ele olhou por cima do ombro e sorriu, mostrando fileiras com alguns dentes faltando.
- Você também não me disse o seu - falou enquanto piscava.
Aquela afirmação me atingiu em cheio. E então eu percebi: eu não fazia ideia de qual era o meu nome. Corri para alcançar o velhinho misterioso, que já se dirigia para uma casa de madeira coberta de musgos. Me perguntei como não havia visto aquela casa antes, ela era gigante. O teto era de vidro e algumas plantas saiam para o lado de fora, grandes janelas rodeavam o lugar e o ambiente parecia mágico. Só havia um problema: como alguém poderia morar naquela casa?
- Venha, vou lhe mostrar tudo - disse ele - A propósito, pode me chamar de Gani - falou animado.
Sorri em resposta, querendo me lembrar do meu nome. Gani se virou em direção a casa, decidi que iria confiar nele. Pisei cautelosamente nos degraus da escada que davam para a varanda cheia de flores. Um banco de madeira colocado em baixo de uma das janelas deixava o ambiente ainda mais aconchegante.
- Essa é a parte de trás da casa - explicou ele.
Terminando a frase Gani abriu a porta de madeira, revelando o interior do lugar. A luz do sol, que estava nascendo, passava pelo teto de vidro e inundava o ambiente, deixando-o iluminado. Porém, não haviam móveis dentro da casa, lá dentro haviam apenas... Plantas. Prateleiras com vasos e flores, pequenas mudas de árvores, musgos e trepadeiras. Em um canto da sala se encontravam um balcão com sementes diversas e uma caixa registradora.
- Bem-vinda à Floricultura Refugium Fascinis - disse Gani.
- Pensei que você morava aqui - falei confusa.
- E moro, mas não sou apenas eu, há alguns funcionários também. Nós moramos em uma casa aqui perto, dentro da propriedade, para podermos cuidar sempre dessas belezuras - disse Gani, acariciando as folhas de uma trepadeira que subia rumo ao teto.
O lugar era fascinante, com uma beleza única e rara. Eu sentia uma estranha sensação estando ali, como se as plantas falassem comigo, me atraíssem, me deixando com vontade de toca-las, de... protege-las.
- Ganimedes, finalmente elas nas...
O dono da frase se calou rapidamente, mas não sem antes deixar meu coração batendo apressado. Virei para encontrar seu rosto e me deparei com olhos verdes, claros e brilhantes.
- Ewen, diga "olá" para a recém chegada - disse Gani.
- Seja bem-vinda, eu sou Ewen, é um prazer conhece-la - falou o garoto, sem tirar os olhos dos meus.
- Obrigada, é um prazer conhece-lo também.
- E como se chama? - perguntou ele.
De repente minha boca ficou seca e um nó se formou na minha garganta, olhei para Ganimedes em busca de ajuda.
- Pode chama-la de Dría - disse o velhinho, seguro de si.
Franzi as sobrancelhas diante da rapidez com que ele havia dito meu nome, mas logo suavizei minha expressão, eu havia gostado do nome escolhido. Ewen sorriu, mostrando dentes perfeitamente alinhados e brancos. Comecei a inspecionar o garoto que permanecia parado perto da porta. Seus cabelos castanhos eram bagunçados de um jeito charmoso, perigosamente charmoso, sua pele era bronzeada, as sobrancelhas eram grossas, o corpo parecia ter sido esculpido por um artista e ele era alto, muito alto. A beleza de Ewen era indiscutível.
- Dría? - chamou Gani - Você ouviu o que eu lhe disse?
Pisquei e percebi que devia estar parecendo uma idiota.
- Desculpe, Gani. Pode repetir?
- Claro - disse ele achando graça - Quer que eu lhe mostre o lugar onde vai dormir?
- Quero sim, por favor.
- Por aqui - disse Gani apontando para a porta - Ewen, vá cuidar daquele assunto, já me encontro com você.
Dito isso, Ganimedes e eu fomos para um lado e o maravilhoso Ewen para o outro. Pegamos um caminho feito de pedras e seguimos por entre as árvores. O chão estava coberto de folhas de um tom meio marrom, o que era um tanto estranho, já que estávamos em plena primavera. Apressei o passo para conseguir acompanhar Gani, aquele velhinho era bem rápido para a sua idade. Não demorou muito e logo chegamos em outra casa, também de madeira, porém de dois andares e com o teto feito de telhas. Uma placa fincada no chão dizia "Lar doce lar. Só entre se for convidado". Sorri ao ler o aviso e entrei com Gani no tal lar. Um grande corredor se abria até uma escada, fotos e quadros enfeitavam as paredes, várias flores perfumavam o local e um grande lustre ficava centralizado na entrada. Do lado esquerdo da escada haviam duas portas e do lado direito mais duas.
- Ali - disse Gani apontando para a primeira porta a esquerda - fica o banheiro. A porta de trás é a da cozinha. Desse lado - disse ele passando para as portas da direita - ficam a biblioteca e a sala com lareira e televisão. Lá em cima ficam os quartos. Vou lhe mostrar o seu.
Subi as escadas seguindo Ganimedes. Assim que chegamos no andar de cima, passos apressados vieram em nossa direção. Me coloquei um pouco atrás de Gani, apenas me prevenindo de ser atropelada ou algo do tipo.
- Ei ei ei crianças - disse Gani para as pessoas que eram tudo, menos crianças - Desse jeito vocês irão assustar a Dría.
Saí de trás do meu protetor e ofereci um sorriso aos meus mais novos companheiros.
- Olá - falei.
Todos responderam ao mesmo tempo, me deixando um pouco zonza.
- Quietos! - disse Ganimedes - Façam uma fila para que eu possa apresentá-los à Dría.
Os seis ficaram lado a lado. Eles eram diferentes, naturais. Simpatizei com todos quase que instantaneamente.
- Este é Arvin, - disse Gani, começando pelo loirinho da ponta - Tate, - um garoto alto e bastante animado - Trina, - uma garota ruiva e com feições doces - Dervin, - de pele escura e corpo muito forte - Althea e Jason - os gêmeos.
- Dría, já esperávamos por você a um bom tempo - disse Trina, me deixando confusa e em alerta.
Tudo ficou em silêncio, Trina arregalou os grandes olhos e começou a gaguejar.
Althea começou a rir alto, Arvin e Jason trocaram olhares preocupados.
- Ah, Trina, sempre exagerando - disse Althea enroscando o braço no meu - Ela só está brincando. Venha, vou lhe mostrar seu quarto. Fica ao lado do meu e do da Trina!
Olhei para Ganimedes, que assentiu.
Seguimos pelo corredor até o último quarto. Althea abriu a porta, revelando um quarto pequeno, porém cheio de vida e muito iluminado. Havia uma cama de solteiro, uma mesinha com abajur, um tapete felpudo, um armário, janelas e, como sempre, flores, muitas flores. Caminhei até o meio do quarto e sorri quando o sol esquentou meu rosto.
- É o quarto mais iluminado da casa - disse uma voz masculina atrás de mim.
Me virei e vi novamente o rosto que conseguia me causar frio na barriga.
- É lindo - falei baixinho, mas não me referia ao quarto.
- É mesmo, as plantas também amam ficar aqui - disse Ewen sorrindo.
Eu queria poder olhar o dia inteiro para aquele sorriso e me perder naqueles olhos verdes cheios de mistério. Eu estava parada como uma planta outra vez, maldito Ewen e seus olhos impossíveis de não olhar.
- Bom, o almoço ficará pronto daqui a pouco. Tome um banho, o banheiro é do outro lado do corredor - disse Ewen se retirando - Ah, Dría, tem roupas limpas no armário, você pode usá-las ao invés de adotar esse estilo "cobestido" - falou ele rindo e fechando a porta.
Fiquei sozinha no quarto e percebi que eu continuava com o cobertor enrolado no corpo. Comecei a rir sozinha depois de perceber o significado da palavra "cobestido". Dobrei o cobertor, peguei um vestido de verdade no armário e me dirigi ao banheiro. Que dia maluco.
***
Depois de tomar um maravilhoso banho e pentear os cabelos desci as escadas indo em direção a cozinha, meus pés descalços não faziam barulho algum na escada. Me aproximando do local da refeição congelei ao escutar meu nome.
- Alguém vai contar para a Dría?
- Acho que deveríamos contar.
- Nós sabemos disso, Trina, você quase contou para ela hoje mais cedo.
- Eu já pedi desculpas por isso, não enche o saco Jason.
- Você quase contou para ela, Trina?? Enlouqueceu?
- Foi sem querer Ewen!
- Você não presta atenção em nada, Trina! Isso vai acabar nos causando um problemão algum dia desses! - consegui identificar a voz de Jason, ele parecia bravo. E eu ficava mais confusa a cada minuto.
- Já chega! - disse Gani - Ninguém vai contar nada por enquanto. Nós precisamos dela e muito. Ewen, tranque a Gruta e não deixe os livros a vista, nosso destino depende da Dría.
A névoa em minha cabeça latejava e se expandia. Algo estava acontecendo e ninguém me contaria. O medo me invadiu em cheio, mas eu não queria fugir. Eles precisavam de mim. E eu iria descobrir todos os segredos.