E o que eu vou ler agora?

Sabe aquela sensação de vazio que fica quando a gente termina um livro? Aquela pequena dúvida "e o que eu faço agora". Bom, esse blog serve pra isso nunca mais acontecer! Vocês, meus querido leitores, vão poder checar essa "biblioteca de ideias" toda vez que a dúvida, o que ler agora, surgir. Aqui vão ter ideias de livros bons para ler, resenhas, sinopses, dicas, histórias e muito mais! Prontos? Então vamos lá!

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Sem Proteção - Parte 3

Dois dias haviam se passado desde o humilhante ocorrido e meu rosto era uma prova constante disso. Dois dias e ninguém havia dirigido uma palavra a mim. Dois dias e a solidão já começava a bater na minha porta.

TOC TOC

Pulei assim que escutei as batidas na velha porta de madeira. Talvez eu devesse parar de falar dessa tal de solidão. Levantei da cama e ajeitei inutilmente minha blusa amassada. Já era final de tarde e o dia havia sido extremamente cansativo. Quem quer que fosse teria que ter uma boa explicação para estar ali. Abri a porta calmamente e um vento morno soprou meus cabelos. Uma garota, que devia ter a mesma idade que eu, estava parada na entrada acompanhada de duas malas. Seu corpo era atlético, os ombros largos, o cabelo era tão negro que parecia azul e sua pele era escura como a terra. Eu sabia o que ela estava fazendo ali, seria minha colega de cela.

- Olá, meu nome é Cora Moore - disse ela estendendo uma das mãos.

- Eu sou Isis Carter - respondi o cumprimento.

- E então, já tomou conta do quarto ou tem espaço para mais uma?

Seu sorriso me fez relaxar. Olhando bem, ela parecia ser uma boa pessoa. Afastei o mau humor e decidi que faria uma aliada naquele lugar.

- Claro que tem espaço para você - falei sorrindo - Mas tenho que admitir que pensei que me deixariam sozinha aqui.

Dei alguns passos para o lado, deixando Cora entrar no nossa cabana. O lado dela permanecia intacto, apenas uma fina camada de poeira cobria seus móveis. Minha nova colega de quarto largou suas malas e abriu a janela, deixando a brisa entrar. Assim que senti o vento, o barulho de espirro chegou nos meus ouvidos.

- Desculpe, sou alérgica a poeira - disse ela fungando.

Sorri com a confissão, percebi que ela não era indestrutível, como todos os outros aparentavam ser. Ela parecia mais... humana. Com passos calmos me dirigi até o armário central, peguei um dos panos de limpeza e umedeci. Depois disso passei em todos os móveis, até mesmo nos meus.

- Muito obrigada, Isis - agradeceu ela, sorrindo.

Assenti, já virando de costas e voltando para o meu lado do quarto, mas assim que passei pela porta uma segunda batida me alertou, fazendo com que meu corpo se arrepiasse. Abri apenas uma pequena fresta.

- Olá, Isis.

A voz grave fez meu estômago se agitar. Theo escondia as mãos nos bolsos, seu cabelo levemente bagunçado tocava os olhos, ele usava uma calça verde-militar e uma blusa branca, que se ajustava em seus músculos. Seus olhos não desgrudavam dos meus, como se ele me analisasse. Me amaldiçoei por ficar tão desconcertada em sua presença. Theo Avery não era bom e eu não deveria, nem queria, ter qualquer sentimento ou sensação boa sobre ele.

- Avery - falei assentindo com a cabeça, a menção de seu sobrenome fez com que seus olhos escurecessem e seus punhos se fechassem - Gostaria de alguma coisa, senhor?

Permanecemos com os olhos um no outro, em silêncio, a tensão se tornando palpável.

- Vim aqui ver sua nova companheira e dar todas as instruções necessárias.

Abri espaço para que ele passasse e fechei a porta assim que ele adentrou o quarto. Me dirigi até a cama e sentei, apenas observando.

- Boa noite, Cora Moore - saudou Theo.

- Boa noite, senhor - disse ela, quase em posição de sentido.

- Bem- vinda ao Centro de Treinamento. Percebi que já conheceu sua colega de quarto, ótimo.

Prestei atenção em Theo durante toda a explicação. Seus braços fortes se cruzavam atrás das costas, deixando uma visão clara de suas mãos. A camiseta apertada se ajustava aos seus músculos, não deixando quase nada para a imaginação. Se nosso histórico não fosse aquele e Theo tivesse se mostrado um homem digno, provavelmente eu estaria totalmente encantada por ele. Porém, aquele não era o caso. Avery repetiu todas as informações que eu havia escutado no primeiro dia. Era como se tudo estivesse acontecendo novamente e o estresse me atingiu em cheio. Suspirei cansada, chamando a atenção dos dois. Theo novamente me fitou, dessa vez preocupado.

- Descansem bem esta noite, amanhã começaremos um treino mais intenso. Bom descanso - disse ele se despedindo.

Desviei o olhar e comecei a brincar com um fio solto do meu cobertor. Assim que a porta se fechou Cora suspirou, como se tivesse visto o mais lindo dos Deuses.

- Seu eu soubesse que existem homens tão irresistíveis aqui, eu teria vindo bem antes - disse ela abanando a si mesma.

Não pude deixar de rir de sua encenação, mas no fundo eu sabia que apesar de lindos eles eram perigosos, como plantas carnívoras.

- Boa noite, Cora.

- Boa noite, Isis.


* * * 


O som irritante do auto-falante começou a tocar, fazendo com que eu desejasse ter uma arma para poder estilhaçar aquele objeto abominável.

- O que está acontecendo? - perguntou Cora com a voz visivelmente irritada.

- Hora de levantar.

- É sempre assim?

- Esse inferno? - arrisquei dizer - Sim.

Levantei da cama e me arrastei até a cômoda. Peguei uma muda de roupas e segui para o banheiro compartilhado. Cora veio logo atrás.

Um relógio gigantesco situado em uma das pontas do campo indicava oito horas da manhã. Redes, colchões, cordas, armações de madeira e arames eram alguns dos obstáculos distribuídos pelo campo. Engoli em seco, aquele dia estava prestes a piorar.

- Bom dia recrutas - gritou Avery - Como podem ver, hoje será um dia bastante... diferente para vocês. Iniciaremos o treinamento um pouco mais pesado. E mais uma informação: a partir de hoje eu terei uma auxiliar. Jackie, pode vir.

Meu coração parou por alguns segundos. Minhas mãos suavam e eu sentia como se fosse sufocar.

- Bom dia recrutas - disse Jackie com um humor sombrio.

Todos responderam em uníssono, menos eu. Os cabelos negros de Jackie estavam presos em um rabo de cavalo, mas mesmo assim chegavam até o meio das costas. Ela usava a mesma roupa que todos nós ali, uma calça bege e uma camiseta verde musgo. Seu corpo era de dar inveja, mas sua personalidade podre era tudo o que eu conseguia ver.

- Muito bem, quero que respeitem Jackie como respeitam a mim - sem chances, pensei - Cuidaremos duplamente de tudo o que fizerem. Hoje vocês farão um circuíto.

- Não parem, mesmo se estiverem cansados, quero resistência aqui! - gritou minha atual inimiga - Comecem!

Revirei os olhos e iniciei o circuíto.

- Boa sorte, Cora - disse para minha nova amiga.

- Boa sorte, querida - disse ela sorrindo.

* * *

Uma hora havia se passado e meus músculos gritavam por piedade. Minha pele estava levemente arranhada pelo arame farpado, minhas roupas agora possuíam a cor marrom, meus cabelos formavam nós e meu corpo todo doía. Eu não aguentava mais. Precisava de água. 

- Senhor Avery, permissão para tomar água? 

Theo permanecia com os braços cruzados na frente do corpo, ele me olhou de cima a baixo e um brilho passou pelo seu olhar. Mas assim como apareceu, sumiu. 

- Se estivermos em uma batalha você não poderá simplesmente parar o que está fazendo para pedir água. Isso é ridículo, magrela - disse Jackie com a voz carregada de desprezo. 

Seus olhos me examinaram, os braços estavam cruzados como os de Theo e uma das suas sobrancelhas permanecia arqueada, como se ela me desafiasse. Resolvi mostrar que eu também tinha garras. 

- Pelo o que eu saiba nós não estamos em uma batalha. Até por que se estivéssemos você não ficaria parada aí com essa pose.

Jackie arregalou os olhos e seu rosto passou para um tom avermelhado. 

- Como ousa... 

- Parem! As duas! - gritou Theo irritado - Isis, vá tomar água. Jackie, se controle. 

Saí dali o mais rápido possível, mas orgulhosa de mim mesma. Talvez aquilo tivesse sido burrice, mas foi uma burrice extremamente prazerosa. Sorri, eu não havia ganhado a guerra, mas pelo menos venci uma batalha. 

Cheguei no banheiro e ataquei o bebedouro. Minha sede era tamanha que fiquei vários minutos sorvendo a água. Assim que me dei por satisfeita resolvi limpar um poco a sujeira do rosto. A água fria aliviou meu calor e me deixou mais relaxada. Fechei a torneira e endireitei o corpo, assim que olhei meu reflexo no espelho o corpo de outra pessoa me assustou. 

- Você deveria saber que não tem que se meter comigo.

Antes que eu pudesse reagir Jackei segurou meu rabo de cavalo com força e bateu meu rosto contra o espelho. Senti a visão vacilar, assim como as minhas pernas. Um filete de sangue escorreu da minha testa em direção ao meu olho. Eu permanecia em pé. Jackie, que era bem mais alta e forte que eu, segurou meus ombros e me levou de encontro à parede, fazendo a parte de trás da minha cabeça bater contra os azulejos, novamente a tontura me atingiu, porém, dessa vez meu corpo desabou no chão frio. Me enrolei em posição fetal assim que senti o primeiro chute. A dor foi tanta que sequer consegui gritar, me faltava ar. Mais alguns chutes e eu temia perder a consciência.

- Espero que isso faça você aprender a lição, magrela. 

Ao terminar a frase ela cuspiu no chão bem perto do meu corpo e saiu, me deixando incapaz até mesmo de gritar por socorro.  As lágrimas começaram a escapar dos meus olhos, boa parte por causa da dor que eu sentia. Meu olho estava coberto pelo meu próprio sangue, me deixando sem a visão. Tentei me levantar, mas meu corpo tombou no chão, sem forças. 

O som de passos apressados chegou aos meus ouvidos, desejei que você ajuda. 

- O meu Deus, Isis! - a voz doce de Cora me acalmou - Quem fez isso a você?!

Cora parecia aflita demais, realmente preocupada comigo. 

- Jackei - sussurrei. 

- Venha, eu te ajudo a levantar. Precisamos ver se você não quebrou nada. 

Antes que minha amiga encostasse em mim uma segunda voz se mostrou presente. 

- Não podemos contar quem fez isso - Theo, era ele - Diga que não viu quem foi. 

Eu não pude acreditar no que estava ouvindo, ele só podia estar brincando. Eu tinha acabado de apanhar e ele estava mais preocupado com a Jackie ser culpada. Reuni as últimas forças que tinha, juntei com o resto de dignidade e me levantei, apoiada em Cora. Olhei para Theo com desprezo e decepção. 

- Não se preocupe, Avery - cuspi seu nome - Sua queridinha está salva, não direi que ela abusa de sua autoridade e não merece esse cargo. Fique tranquilo. 

Minha voz saía de mim com tanto ódio que até mesmo o corpo de Cora ficou rígido. A expressão de Theo se tornou agoniada, como se ele estivesse extremamente triste e derrotado. 

- Me desculpe Isis - disse ele se aproximando. 

- Não chegue perto de mim, você já fez o bastante, senhor - a última palavra saiu com desdém. 

Me apoiei em Cora e juntas nos retiramos do banheiro. Iríamos direto para a enfermaria. 

- Daqui para frente eu nunca mais irei apanhar sem revidar. Isso é uma promessa Cora, guarde minhas palavras. 

Aquele dia foi a gota d´água. Eu iria me transformar no pesadelo daquelas pessoas.




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