Theo
"Eu sei que você matou a Jackie!"
A frase repercutiu pela minha mente e permaneceu lá, causando o início de uma dor de cabeça. Olhei no fundo dos expressivos olhos de Isis e me perguntei se ela realmente pensava naquela possibilidade. Fechei os olhos e soltei seu corpo, ela se afastou e me encarou, provavelmente esperando o pior de mim.
- Você realmente acha que eu a matei?
Seus lábios abriram e fecharam, mas a voz não saiu de sua boca. Eu sabia que ela travava um batalha interna, tentando decidir se realmente me considerava culpado ou não. Seus olhos me estudaram, quase me suplicando, e a dor aguda se intensificou em meu peito. A sensação era familiar e desoladora, impossível de esquecer. Eu vinha tentando evitar os pensamentos relacionados a Jackie, mas em poucos instantes a imagem de seu corpo frágil e sem vida bombardeou minha mente fazendo com que todo o cansaço e a dor se tornassem quase palpáveis. Me afastei ainda mais de Isis e virei as costas para ela. Apertei meus punhos até que os nós dos meus dedos ficassem brancos. Eu não sentia raiva por seus pensamentos sobre mim, mas mentiria se dissesse que eles não me magoavam.
- Eu não matei a Jackie - falei por fim.
Permaneci de costas tentando lidar com a minha própria dor.
- Eu a amava - falei enquanto me virava, o sofrimento explícito na minha voz - Ainda a amo.
Um conjunto de sentimentos e sensações estampou o delicado rosto de Isis e eu vi suas defesas se esvaindo. Seus ombros ficaram tensos e seus olhos fitaram o chão, os pés remexendo a terra e os restos de feno. Por fim seus olhos mergulharam nos meus, buscando respostas.
- Você a ama - disse ela com dificuldade - Você a ama e sequer tentou me contar.
Suas últimas palavras estavam carregadas de ressentimento e raiva. Eu precisava fazê-la entender.
- Me desculpe, eu não podia contar, se contasse, o meu futuro e o de Jackie seria prejudicado.
- Então você me usou? - indagou Isis se aproximando, os olhos furiosos.
- O que? Não, eu nunca...
- Nunca fingiu gostar de mim? Me poupe, Theo!
Isis cuspia as palavras em cima de mim e demonstrava todo o seu desprezo. A confusão me atingiu em cheio.
- Isis - comecei calmamente - Me escute...
- Cala a boca! Eu não quero escutar mais nenhuma mentira!
A raiva transbordava de seus olhos e eu sabia que ela não iria ceder. Sustentei seu olhar furioso e parti para o ataque. Isis logo percebeu que ela era o alvo e tentou se esquivar, no entanto, a tentativa foi em vão. Agarrei seus braços e a manti refém. Seu corpo se debatia e ela tentava me machucar de todas as maneiras possíveis.
- Pare com isso! - gritei sacudindo seu corpo - Você não está me escutando!
- Eu não quero escutar! Não quero mais ouvir o quanto você ama sua alma gêmea Jackie! Me solta!
Todos os pensamentos sumiram da minha mente e minha boca secou. Mergulhamos em um silêncio profundo que pareceu durar uma eternidade.
- Eu não amo a Jackie do jeito que você acha - falei, depois de um tempo, fitando o chão - Ela era a minha irmã.
Não consegui olhar em seus olhos, se ela me encarasse conseguiria ver toda a minha dor. Minhas mãos escorregaram pelos braços de Isis, porém, pararam assim que tocaram seus dedos. Levantei o olhar e captei a culpa por de trás dos seus cílios. Cautelosamente Isis abraçou meu corpo, nos conectando. Ela não era uma garota alta, mas conseguiu envolver meu corpo de uma maneira que ninguém nunca tinha feito. Eu não era um cara de abraços, mas isso mudou depois que Isis entrou na minha vida.
- Eu sinto muito - disse ela simplesmente.
A tensão em meu corpo logo se dissipou e eu me permiti relaxar. Afaguei os cabelos de Isis, agradecendo, silenciosamente, sua presença. Ficamos assim por dois segundos, dois minutos, duas horas ou uma eternidade, não sei, apenas me agarrei à sensação de paz.
- Eu estava lá - falou Isis depois de um tempo, quebrando o silêncio.
Me afastei apenas o suficiente para conseguir ver seu rosto.
- O que você quer dizer com isso? - perguntei cauteloso.
- Eu estava lá na noite em que Jackie foi assassinada.
Coloquei distância entre nós dois, sem saber direito no que pensar. Ela estava lá, por que não ajudou minha irmã?
- Eu não sabia o que estava acontecendo - disse ela voltando a se aproximar - Eu estava treinando no campo quando as vozes se tornaram audíveis, mas a conversa não durou muito tempo, então pensei que havia imaginado tudo. Quando eu estava voltando, vi você entrando em seu quarto e olhando para todos os lados, como se estivesse conferindo se realmente estava sozinho. No dia seguinte eu apenas juntei todos os fatos.
Minha mente trabalhava rapidamente, encaixando tudo como um quebra-cabeças. Fitei os olhos de Isis novamente, a dúvida voltando a se instalar dentro dela. Tudo estava tomando forma para mim, as lacunas estavam sendo preenchidas.
- O que você estava fazendo naquela noite, Theo?
A pergunta pareceu um xeque-mate, eu era a última peça e estava encurralado. Revelar meus segredos poderia ser algo perigoso e com certeza não tinha volta, mas eu devia isso a Isis e por ela eu não me importava em arriscar.
- Eu estava voltando da tenda do Comandante.
Vislumbrei o misto de confusão e surpresa no rosto de Isis. Não havia mais volta.
- Por quê? - perguntou ela.
Xeque.
- Porque ele é meu pai.
Mate.

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