Emily
A voz de Owen era firme, mas eu não pude deixar de sentir ciúmes. Eu o observava da janela da cozinha, ele estava compenetrado desenhando uma garota cujo o nome era Alisha. Uma garota que não era eu. Pouco tempo havia se passado desde que eu estivera em seu quarto, mas parecia que ele já havia se esquecido disso. Por um lado isso era bom, eu não teria que enfrentar a Bruxa má chamada Fleur, mas por outro lado, o lado que fazia meu coração doer, eu não poderia ficar com Owen.
- Você poderia pelo menos fingir que não está babando pelo garoto, Emily - disse uma voz que eu conhecia muito bem.
- Desculpe, Anette, não vai acontecer de novo - falei rapidamente.
- Ahh, minha menina, você não deveria estar sofrendo por ele. Você merece coisa melhor - disse Anette acariciando meu ombros cansados.
- Eu estou bem - disse já pegando o primeiro prato sujo.
- Deixe, eu faço isso - disse Anette - Vá descansar um pouco.
Sem pestanejar, me dirigi até meu pequeno quarto, mas não sem antes passar em frente ao gigantesco jardim. Não era algo que eu queria fazer, mas eu não tinha escolha, para chegar ao meu quarto eu precisava passar por aquele maldito jardim. Assim que cheguei perto da porta que dava para fora comecei a ouvir as risadinhas irritantes de Alisha. Ela estava pendurada nos ombros de Owen observando seu desenho, que eu sabia que deveria estar perfeito, e aproveitando para sussurrar coisas em seu ouvido. Ele riu e concordou com um leve aceno, virando na minha direção. Assim que Owen me viu seus olhos se tornaram mais tristes, fazendo com que meu coração se apertasse. Mas antes que eu pudesse dizer alguma coisa, Alisha se jogou novamente para cima do meu misterioso garoto de olhos verdes. Eu não podia assistir aquilo. Virei de costas e saí correndo para meu quarto.
Owen
Eu não queria estar com Alisha. Ela era puro interesse e maldade. Mas eu tinha que estar. Eu deveria ter sido mais cuidadoso, não deveria ter deixado que Cloe visse Emily no meu quarto. Emily. Eu sentia sua falta. Mas ela não estava comigo agora, no lugar onde ela deveria estar se encontrava Alisha, rindo do jeito mais falso possível. Aquela garota era amiga de Cloe e me "perseguia" desde o primeiro ano, agora ela havia achado um jeito de me obrigar a passar um tempo com ela. Nós estávamos no jardim, eu havia dado a ideia de desenhá-la, assim não precisaria ficar conversando sobre coisas que eu considerava inúteis. Alisha se posicionou de modo que seu decote ficasse bem aparente e virou o rosto para o lado. Perfeito! Assim ela não ficaria me encarando e nós não precisaríamos conversar.
- Esse ângulo está ótimo, não se mexa - falei antes que ela virasse a cabeça na minha direção novamente.
- Eu sabia que você iria gostar - disse ela dando risadinhas novamente.
Eu não conseguia tirar Emily da cabeça, tive que recomeçar o desenho umas duas vezes pois começava a desenhar ela ao invés de desenhar Alisha. Emily estava em algum lugar dentro da casa que eu chamava de lar e eu desejava poder estar com ela. Olhar para aqueles grandes olhos fazia eu esquecer de tudo. Estar com ela era a melhor coisa que já havia acontecido comigo, mas por um descuido eu tinha perdido isso.
- Como está ficando, gatinho? - perguntou Alisha fazendo biquinho.
Me levantei um pouco irritado e evitei olhar em seus olhos.
- Olhe você mesma.
Ela se levantou e saltitou na minha direção. Se debruçou sobre meu ombros e admirou meu desenho.
- Você é muito talentoso... - sussurrou ela em meu ouvido - Por que não me mostra seu quarto...? Quero dizer, seus outros desenhos.
Eu estava farto daquilo, mas sorri e concordei com ela. Assim que me virei para entrar em casa avistei Emily parada na porta. Meu peito apertou dificultando a tarefa de respirar. Ela estava tão bonita e ao mesmo tempo tão triste. Em abriu os lábios, pronta para me dizer alguma coisa, mas seus olhos miraram um ponto atrás de mim. Alisha. Ela estava me vendo com Alisha. Como se percebesse nossos olhares, Alisha pulou contra minhas costas novamente, rindo de algo que não fazia ideia do que era. Olhei para a porta novamente, minha Emily não estava mais lá.
Emily
Como eu não precisa servir o jantar consegui ir para o quarto mais cedo. Eu não me atrevia a ir até a varando para observar as estrelas, por isso teria que olhar para elas da minha janela mesmo. Vesti minha camisola velha e me debrucei para olhar o céu. Eu gostava de acreditar que havia alguém cuidando de mim lá de cima, gostava de pensar que um dia tudo ficaria bem. Apoiei a cabeça nos braços e comecei a contar as estrelas. Elas foram ficando borradas aos poucos, até que eu sono venceu.
Uma batida leve me acordou, eu continuava escorada na janela. Péssima ideia, meu pescoço doía e várias horas haviam se passado. Me dirigi até a porta massageando os músculos doloridos, abri ainda meio sonolenta, mas assim que vi Owen meus cérebro despertou. Eu devia estar sonhando. Estendi o braço e toquei sua pele macia. Um maravilhoso e irresistível sonhos.
- Emily - disse ele rindo, sua risada era mágica - Você está dormindo ainda? Desculpe se acordei você.
Opa, opa! Não era um sonho. Retirei a mão de seu rosto rapidamente e corei. Que vergonha.
- São duas da manhã - falei me virando e massageando o pescoço - Você precisa de alguma coisa?
- Sim - seus olhos me investigavam dos pés a cabeça - De você.
Borboletas começaram a dançar dentro da minha barriga. Como ele podia ser tão maravilhoso?
- Não podemos, Owen. Você sabe disso - tive que juntar todas as minhas forças para dizer isso.
Ele não disse nada, mas começou a caminhar lentamente na minha direção. Recuei na medida em que ele se aproximava. Seus olhos possuíam um brilho diferente. Bati contra a parede. Fim da linha. Engoli em seco.
- Eu sei que não podemos. Mas eu também não posso ficar longe de você, Em - disse ele.
Sua proximidade afetava minha capacidade de pensar direito. Seu rosto se aproximou do meu, senti sua respiração se misturando com a minha. Quando seus lábios tocaram o canto da minha boca, as borboletas no meu estômago começaram a dar piruetas. Eu precisava dele e ele precisava de mim. Mas então, a imagem de Alisha entrou na minha mente.
- Espera. E a Alisha? - perguntei meio sem fôlego.
- Quem? - disse Owen beijando meu pescoço.
Fechei os olhos e quase esqueci da pergunta. Mas eu precisava saber. Afastei-o com uma das mão e olhei em seus olhos confusos.
- E a Alisha? - perguntei novamente.
- Ela é uma amiga da Cloe. As duas resolveram me chantagear. Eu sinto muito por ter feito você ver aquela cena. De verdade, Em, me desculpe.
Ele estava sendo sincero, eu conseguia ver em seus olhos. E tinha algo mais neles. Paixão. Agarrei seus cabelos e juntei nossos lábios. Fogos de artifício se formaram em volta de nós dois, nos envolvendo. Eu estava apaixonada por aquele garoto. Nós éramos de mundos diferentes, mas pertencíamos um ao outro.
- Venha, vamos dar uma volta - disse Owen com a respiração pesada e os olhos mais vivos do que nunca.
Seguimos até o jardim que seguia iluminado pela luz da lua.
- Faz um tempo que quero te trazer aqui - disse ele.
- É lindo, Owen.
- Não mais do que você - disse ele sorrindo verdadeiramente.
Seus dedos colocaram uma das mechas do meu cabelo atrás da minha orelha e ele se sentou comigo na grama verde um pouco úmida. O céu ganhava vida quando ele estava ao meu lado, tudo ficava mil vezes melhor. Deitei a cabeça em seu ombro. Eu estava aonde queria estar. Eu estava segura. Ele, Owen Morgan, era meu lar.
Fleur
Eu não podia acreditar no que estava vendo. Por mais que eu tentasse era impossível manter a garota longe do meu filho. E lá estavam os dois, sentados no meu jardim, pensando que tudo estava bem. Mas não estava. Nada estava bem. Eu não havia criado Owen para ficar com a empregada. Ele podia mais, podia muito mais. Ela não se encaixava no nosso mundo, e eu faria ela ter certeza disso. Ela se arrependeria de ter seduzido meu filho. Eu iria mostrar seu verdadeiro lugar...
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