- Você precisa de uma folga, Kat - a voz suave de Brooke dizia que ela ainda estava ali.
- Pensei que você já tivesse ido embora - falei sem tirar os olhos do livro.
- Mas eu ainda não fui. E não irei até que você aceite minha proposta.
Passar o feriado em um hotel super chique nas montanhas era o que Brooke estava tentando me convencer a fazer. Ela havia ganhado a viagem dos sonhos de algum concurso e agora precisava de uma acompanhante. Não que eu não quisesse passar o feriado inteiro sendo mimada em um spa de luxo, mas o que me preocupava era a prova que teria na segunda, depois que o sonho acabasse.
- Ahhh Kat! Você está estudando para está prova desde o começo do mês. Dê um descanso para o seu cérebro brilhante - disse Brooke com aquela carinha de cachorro que caiu da mudança.
- Eu não tenho dinheiro - tentei outra vez.
- É uma viagem com tudo pago, bobinha. Boa tentativa - disse ela confiante.
Talvez fosse bom para mim ter um descanso, eu havia estudado bastante.
- Tudo bem! Você está certa - falei.
- Sim, estou.
- Parece que nós vamos para as montanhas - falei desanimada.
- Nós iremos para as montanhas!! - gritou Brooke - Você precisa arrumar suas coisas, o avião sai amanhã de manhã. Vai ser incrível!!
Fechei meu livro relutante e tentei lembrar de tudo que eu precisava saber.
- Katrina! Pare com isso. Eu consigo ver a fumaça saindo pelas suas orelhas! Chega de pensar em escola. Te pego amanhã às nove horas!
A frase de Brooke foi encerrada com o barulho da porta se fechando. Eu precisava relaxar. Empurrei todos os pensamentos sobre a prova para o fundo da minha mente e me dirige até o meu quarto. Peguei a mala vermelha de baixo da cama e comecei a separar as roupas. Meia hora depois minha mala já estava em frente a porta e eu estava preparada para dormir. O feriado seria divertido. Algo dentro da minha cabeça estava em alerta, eu não sabia o motivo, ignorei a sensação estranha e afundei nos travesseiros.
O sol da manhã penetrou as cortinas e encontrou meu rosto, a sensação era reconfortante e me deixava ainda mais preguiçosa. Olhei para o relógio, oito e meia da manhã. Droga, eu precisava me arrumar. Chutei as cobertas para longe e corri até o banheiro para uma ducha rápida. Assim que terminei vesti uma calça jeans, uma blusa cinza e calcei minhas botas para o frio. Uma batida na porta indicou que já deveriam ser nove horas. Abri a porta e avistei uma Brooke para lá de animada.
- Bom dia flor do dia! - disse ela cantando.
- Bom dia margarida - falei contagiada pela sua felicidade.
- Você está pronta?
- Estou, vamos?
Peguei minha mala e segui Brooke até o táxi. Um vento frio balançou meus cabelos e me lembrou que estávamos em pleno outono. Eu esperava não congelar nas montanhas. Quinze minutos depois de entrar no táxi, nós duas chegamos no aeroporto. Nosso voo estava marcado para as dez horas da manhã.
- Nós vamos chegar antes do meio-dia, poderemos aproveitar o dia inteiro - disse Brooke.
Respondi com um sorriso e voltei a olhar para a frente. A sensação ruim continuava na minha mente. Engoli em seco e segui Brooke até o terminal. Nós iriamos nos divertir. Nós iriamos nos divertir. Repeti a mesma frase algumas vezes e tentei relaxar. Entramos juntas no avião, agora não tinha mais volta.
***
- Kat - a voz de Brooke era distante - Kat, nós vamos pousar. Dê uma olhada pela janela, olhe que lindas as montanhas.Abri os olhos ainda meio sonolenta e olhei para a paisagem. Ela estava certa, aquilo era lindo demais. O sol banhava as montanhas e trazia uma alegria singular.A neve ainda não havia se acumulado no topo das montanhas, mas todas as folhas já possuíam um tom alaranjado. O avião se aproximava cada vez mais do solo. Pousamos sem nenhum problema. Brooke e eu fomos atrás das malas e chamamos um táxi. Aquilo seria legal, eu finalmente estava animada com a viagem.
- Isso no seu rosto é um sorriso, Kat...? - perguntou Brooke.
Dei um leve empurrão em seu pequeno corpo e nós duas começamos a rir. Ela estava certa, eu estava feliz e animada.
Não demorou muito para que pegássemos o táxi e chegássemos no gigantesco hotel. Ele ficava quase no topo de uma montanha. O ar era frio e o chão estava cheio de diversas folhas em decomposição. O hotel parecia ser antigo, mas ostentava, tranquilamente, cinco estrelas. Uma fonte se encontrava no centro da fachada e diversas plantas se enroscavam em um grande arco na entrada. Eu me sentia em um filme da Disney, como se eu fosse a Bela, de A Bela e a Fera, entrando em seu castelo.
Olhei para baixo em busca da minha mala, mas não encontrei.
- Eles tem carregadores aqui, já levaram nossas malas - sussurrou Brooke - Estou louca para ver nosso quarto! - disse ela pulando e batendo palminhas animadas.
Nos apressamos nas escadas e adentramos as portas duplas. Meu queixo caiu assim que me deparei com a decoração do interior. As paredes possuíam uma cor dourada fraca e quadros antigos enfeitavam o ambiente. Tudo ali era antigo e maravilhoso. Eu estava no paraíso. Fizemos o check in e corremos em direção ao nosso quarto.
- Quarto 512 - disse Brooke.
Assim que ela pronunciou o número algo em meu cérebro estalou. Fiquei quieta por alguns segundos antes de estrar no quarto. Algo ali era extremamente familiar. Mas não poderia ser, eu nunca havia estado lá antes. Balancei a cabeça levemente e adentrei o quarto. Duas camas de casal se encontravam no centro do aposento. Um tapete macio enfeitava o chão de madeira e diversos objetos antigos estavam espalhados pelo quarto. Grandes cortinas haviam sido colocadas nas janelas que iam do chão ao teto. Me joguei na cama king size e afundei nos grossos cobertores. Com o canto do olho pude perceber que Brooke havia feito a mesma coisa.
- O que iremos fazer? - perguntei em voz alta.
- Que tal irmos visitar aquele spa maravilhoso e de noite jantarmos no restaurante aqui do hotel? - sugeriu Brooke.
- Ótima ideia - falei - Vamos lá.
O spa ficava no segundo andar e ocupava o andar inteiro. Optei por uma massagem relaxante e por um banho em água purificada. Meu corpo implorava por descanso e não foi difícil aproveitar cada momento. Brooke e eu passamos a tarde inteira relaxando, minha mente ficou totalmente vazia e eu me senti leve novamente.
- Você quer experimentar aquele restaurante cinco estrelas? - perguntou Brooke enquanto nos preparávamos para jantar.
- Eu não perderia por nada - respondi animada.
Vesti um vestido preto justo com mangas e calcei um sapato de salto alto cor-de-rosa. Deixei meus cabelos soltos e passei uma maquiagem um pouco mais carregada. Eu estava me sentindo revigorada e incrível. Pegamos o elevador e chegamos no famoso restaurante. Ele era em forma de cúpula, o teto era todo feito de vidro, deixando a vista o céu e as estrelas. As paredes possuíam uma cor neutra e uma gigantesca lareira havia sido construída em um dos cantos do grande salão.
- Mesa para duas - disse Brooke ao recepcionista.
Seus olhos a analisaram e depois pararam em mim. Suas pupilas se dilatam e eu pude jurar que eles mudaram de cor. Tudo isso durou apenas alguns segundos, mas eu sabia que havia acontecido. Um garçom nos guiou até uma mesa mais afastada, perto da lareira e nos entregou o cardápio. Meus olhos começaram estudar o local. Ela era familiar. Aquele teto de vidro. As paredes. As fotos. As fotos...
- Kat! - disse Brooke me tirando do transe - Acho que eu vou querer o camarão com caviar e você?
O garçom anotava rapidamente o pedido.
- Hum, eu vou, eu vou querer o peixe com aspargos, por favor - pedi rapidamente.
Aquele lugar me deixava inquieta, mas eu não sabia dizer o porquê.
- Você está bem, Kat? - perguntou Brooke.
- Claro, estou ótima - falei me recompondo.
Os pratos não demoraram para chegar e logo eu já havia esquecido quão esquisito era aquele lugar. Eu e Brooke ríamos de algum acontecimento quando as paredes começaram a tremer. Meu corpo ficou em alerta. Todos pararam de comer e olharam para o teto. O vidro estava começando a rachar. Algo estava pressionando e tentando entrar. Um ruído ensurdecedor dominou o ambiente assim que o vidro se rompeu. As pessoas começaram a correr. Os cacos caíam em cima das pessoas e algumas estava terrivelmente machucadas. Brooke pegou minha mão e nós duas começamos a correr em direção a saída. O teto continuava a desmoronar até que tudo parou. O salão mergulhou em um silêncio assustador. Todos olhavam em direção ao céu escuro. Algo preto foi lançado do alto da cúpula e aterrizou suavemente no meio do salão. Todos prestavam atenção. A criatura emitiu um rugido animalesco e várias outras surgiram na nossa direção. Corri para um lado puxando Brooke, mas ao mesmo tempo ela correu para o lado oposto,fazendo com que nossas mãos se soltassem. Tudo aconteceu em câmera lenta, uma criatura envolveu o corpo frágil de Brooke e saltou para o lado de fora do salão.
- Nãoooooo! - gritei tentando desesperadamente agarrar a mão da minha melhor amiga.
Os gritos das pessoas em pânico me deixaram atordoada. Eu precisava me esconder. Olhei ao redor. A lareira. Corri em sua direção e me atirei lá dentro. Ela era gigante, ninguém iria me ver. Me espremi em um canto e envolvi minhas pernas. Eu precisava achar a Brooke. As lágrimas começaram a rolar, estava tudo errado.
- Acharam a garota? - uma voz rouca soou perto demais.
- Não senhor, ela não está em lugar algum - disse uma voz mais jovem.
- Continuem procurando - ordenou.
Aquilo só poderia ser um pesadelo. Espiei o salão, tudo estava quebrado, pessoas estavam imóveis no chão e sangue, havia muito sangue. O que eu iria fazer? Como eu acharia Brooke? Um puxão em meu braço me tirou do meu esconderijo. Minha bochecha pressionou o chão frio.
- Qual é o seu nome? - perguntou uma voz baixa perto do meu ouvido.
O nó na minha garganta me impedia de falar. Meu corpo foi arremessado de encontro a parede fazendo com que todo o ar saísse dos meus pulmões. Mãos agarraram meu vestido rasgado e me levantaram. Um par de olhos furiosos me encarou, mas logo se suavizaram e adquiriram um brilho prateado. Observei suas feições. Era um rapaz jovem tão bonito quanto a noite. Tão perigoso quanto o próprio demônio.
- Quem é você? - perguntou ele.
- Ka, Ka, Katrina - gaguejei.
Seus olhos se arregalaram.
- Nu Ditandaan - disse ele.
O que aquilo significava? Quem era ele? Seus braços me envolveram e nós mergulhamos na noite escura como as trevas. Meu mundo não seria mais o mesmo.
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