E o que eu vou ler agora?

Sabe aquela sensação de vazio que fica quando a gente termina um livro? Aquela pequena dúvida "e o que eu faço agora". Bom, esse blog serve pra isso nunca mais acontecer! Vocês, meus querido leitores, vão poder checar essa "biblioteca de ideias" toda vez que a dúvida, o que ler agora, surgir. Aqui vão ter ideias de livros bons para ler, resenhas, sinopses, dicas, histórias e muito mais! Prontos? Então vamos lá!

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Sem Proteção - Parte 2

O caminho até o centro de treinamentos foi longo, mas não longo o bastante. Me sentei na última fileira de bancos do caminhão, ao lado da janela, envolta em solidão. Durante todo o caminho eu me concentrei apenas em meus pensamentos e evitei escutar o burburinho e as piadas que se propagavam pelo caminhão. Quando chegamos ao centro fomos designados a cabanas simples, com lugar para duas pessoas. Cada cabana possuía um número e elas eram dispostas em fileiras, uma atrás da outra. Minha cabana era feita de madeira e dentro dela haviam duas camas, duas cômodas com várias gavetas, um armário com cobertores extras e um pequeno aquecedor. Escolhi um lado do quarto e me deitei na cama, abraçando meu próprio corpo, sequer desfiz minha mala. como se a qualquer momento eu pudesse ir embora, como se a qualquer momento alguém entrasse na cabana e dissesse que aquilo havia sido apenas um engano. Mas ninguém entrou, ninguém me buscou. Eu estava sozinha naquele lugar. E foi naquele momento que eu me permiti chorar. Toda a frustração e o medo saíram em forma de lágrimas. Adormeci me lembrando do passado e tentando bloquear o futuro. 

"Atenção! Todos os recrutas se apresentem imediatamente ao centro do acampamento. Atenção! Todos os recrutas se apresentem imediatamente ao centro do acampamento."


A voz masculina vinha de um pequeno auto falante instalado no canto da cabana. Era tão alto que a tarefa de ignorar se tornou impossível. Me levantei, sentindo a cabeça pesada, e me dirigi até o tal centro. Não foi difícil encontrar. Haviam muitos recrutas, todos com a mesma idade que eu.


- Formem filas, recrutas - gritou um homem alto, musculoso e moreno.


Vários "companheiros" me empurraram e começaram a formar filas. Me dirigi para o final de uma delas. Olhando em volta pude perceber o quão errado era estar ali. Todas as pessoas, sem exceção, eram fortes e disciplinadas. Eu sequer sabia o que estava fazendo ali.


- Bem-vindos - disse um homem com um pouco mais de idade - Meu nome é Anthony Andrea, mas para vocês é Sargento Andrea.


- Que ótimo, nosso sargento tem nome de mulher - cochichou um garoto da fileira ao lado, fazendo com que algumas pessoas rissem baixinho.


- Há algo engraçado, recrutas? - peguntou o Sargento Andrea.


- Nada, senhor - disseram todos ao mesmo tempo.


- Todos vocês se dirijam para a cozinha, irão descascar as famosas batatas. E da próxima vez pensem bem antes de rir do seu Sargento! - gritou o Sargento Andrea.


Todo o meu corpo estremeceu. O medo invadiu cada célula do meu corpo.


- Mais alguém deseja se juntar a eles? - perguntou - Muito bem, assim é melhor. Todos vocês foram designados a uma cabana com um número, não se esqueçam desse número. Alguns de vocês ainda não possuem um companheiro de "cela" - disse o Sargento, rindo da própria piada - Não se preocupem, eles irão chegar ainda nessa semana. Agora escutem com atenção como as coisas vão ser. Temos um toque de recolher, todos deverão estar em suas cabanas às dez horas da noite. Os banheiros são compartilhados, portanto as mulheres poderão tomar banho das 5 às 6 da manhã e das 7 às 8 da noite. Os homens poderão tomar banho das 4 às 5 da manhã e das 8 às 9 da noite. Respeitem esses horários. A refeição da manhã é servida às 6 horas e a refeição da noite é servida às 9 horas. Cada um de vocês receberá uma tarefa, que por enquanto será apenas treinamento básico, para fortalecer os  músculos e criar resistência. 


Olhei para meus braços, eram muito finos. E eu não tinha nenhuma resistência.


- Vocês terão um tempo no meio da tarde para um lanche - continuou ele - E um último aviso: nós não aturamos desrespeito e falta de disciplina, todos aqueles que descumprirem alguma regra irão  sofrer as consequências. Muito bem, vocês se dividiram em filas, cada fila terá uma espécie de mentor que irá ser responsável pelas atividades que vocês farão. Obedeçam seu mentor. E lembrem-se: "Aquele que nasceu para servir sempre será lembrado." 


Assim que terminou de falar o Sargento se retirou, deixando cada fila com um mentor. Espiei o início da minha, tentando enxergar meu mentor. Assim que o vi meu coração parou. Aquilo só podia ser brincadeira, uma piada. Tinha que ser justamente o garoto com quem eu havia discutido. A fila começou a andar, nos dirigimos até um campo aberto cheio de equipamentos.


- Bom dia, recrutas. Meu nome é Theo Avery, seu mentor. Estou com seus uniformes e suas correntes de identificação, podem pegar assim que eu permitir. Somos o menor grupo do campo, mas não vou tolerar preguiça e frescura. Hoje começaremos com corrida. Quero ver quantas voltas vocês conseguem aguentar. Façam uma fila para receberem seus pertences. 


Como de costume eu era uma das últimas, mas sequer queria estar naquela fila. Todos pegavam seus uniformes e iam em direção ao banheiro. Eu torcia para que os banheiros fossem em cabines, estar ali já era ruim, mas ter que trocar de roupa na frente de vários marmanjos seria muito pior. 


- Nome - disse Theo para mim, tentando disfarçar o sorriso debochado. 


- Isis Carter - falei seca. 


- Isis Carter... Que mundo pequeno, não acha? - cochichou ele, achando graça. 


- Não enche - bufei, arrancando meus pertences de seus braços. 


Talvez eu não devesse tratar "meu mentor" daquele jeito, mas eu não consegui me conter, Theo Avery me tirava do sério. Para o meu alívio o banheiro tinha cabines, pelo menos isso. Vesti o abrigo, calcei os coturnos, prendi os cabelos em um rabo de cavalo e coloquei a corrente com o meu nome. Segui os demais recrutas e todos voltamos para o campo. Eu com certeza me destacava no grupo, mas não de uma forma positiva. Minha pele era muio branca, meus cabelos eram compridos e de um castanho claro, eu não passava de um metro e 60 centímetros de altura e meu corpo era fraco e muito magro. Conseguia perceber os olhares dos outros sobre mim, mas permaneci de cabeça erguida. 


- Comecem a correr, recrutas. No mínimo dez voltas! - gritou Theo. 



Todos começamos a correr e por alguns segundos eu cheguei a pensar que conseguiria correr as dez voltas. Me enganei redondamente. 

❇ ❇ 

Deixei meu corpo cair na grama. Eu não havia conseguido fazer as dez voltas, mas pelos menos umas oito eu completei. Ou não. Meus pulmões não se expandiam o suficiente e eu me sentia meio zonza. Todo meu copo parecia formigar. 


- Estão dispensados. O resto da tarde será reservada para que se conheçam. Nos vemos amanhã, recrutas.


Levantei com dificuldade. Eu iria deitar na minha cama e esperar até a hora do banho. Não iria reservar tempo nenhum para a "confraternização" deles. 



❇ ❇ 

O relógio marcava dez horas em ponto. Todas as luzes se apagaram. Eu estava de banho tomado e o sono logo chegou. Eu já não aguentava aquele lugar, talvez eu começasse a marcar riscos na minha cama, contando os dias naquela "prisão".



❇ ❇  

- Acorda recruta preguiçosa! Está na hora da iniciação! Não achou que se livraria dessa, achou? - disse uma voz feminina, a mulher logo arrancou minhas cobertas. 


Consegui olhar a hora antes de ser arrastada para fora. Ainda eram duas da manhã. Eu torcia para ser um pesadelo. Assim que cheguei na porta fui empurrada para o chão. Levantei rapidamente e avistei todos os recrutas. Todos nós estávamos de pijama e com cara de assustados. 


- Para o campo, recrutas! - gritou um homem. 


Todos corremos em direção ao campo de treinamentos. Eu não estava gostando nada daquilo. 


- Formem filas e tirem as roupas. 


Aquilo só podia ser brincadeira, e uma de mau gosto. Os recrutas logo obedeceram, mas eu não consegui me mexer, não conseguia simplesmente me despir na frente daquelas pessoas. 


- Você! - disse um homem apontando para mim - Comece a tirar as roupas. Agora!


Meu corpo não obedecia, apenas tremia descontroladamente. O homem se aproximou e me puxou pelo braço. Seu aperto era forte e me machucava. Tentei permanecer no lugar, mas foi em vão. 


- Parece que temos um problema aqui - disse ele me expondo para todos - Essa recruta acha que pode ir contra as regras. 


Com o canto do olho avistei Theo, seu rosto estava sério, ele parecia bravo. 


- Tire as suas roupas - ordenou o homem que havia me arrastado até ali. 


Todos estavam em silêncio, apenas esperando o que eu iria dizer. Balancei a cabeça em negativa. 


- Tira as suas roupas, magrela! - gritou o homem. 


Assim que ouvi o apelido a raiva me dominou. Estufei o peito. 


- Não. - falei entre dentes. 


- O que disse? - perguntou ele agarrando meu rosto e me fazendo olhar para ele. 


- Eu disse não - repeti menos segura. 


O homem apertou ainda mais meu rosto, fazendo com que um grito escapasse pela minha garganta. Ele me empurrou, fazendo com que meu corpo batesse no chão. Ele se aproximou de mim e me levantou pelos braços. Seu rosto estava quase colado no meu. Seus olhos eram verdes escuros, as feições eram fortes e o cabelo estava raspado. Ele aparentava ter a idade de Theo, provavelmente também era um mentor e ele era tão bonito quanto Theo. Porém, seu olhar era sombrio e demonstrava maldade, fazendo com que sua beleza se apagasse.  


- Ashton - alertou Theo.


- Não se meta nisso, Theo - disse Ashton - Ela tem que aprender. 


Meu corpo continuava a tremer e eu alternava o olhar entre Ashton e Theo. Por fora eu tentava parecer forte, mas por dentro eu implorava para que Theo fizesse alguma coisa. Eu ainda não gostava dele, mas pelo menos ele parecia sensato. Antes que eu pudesse perceber, Ashton levantou uma das mãos e acertou meu rosto em cheio. Seu tapa foi forte e me deixou desnorteada. 


- Agora tire suas roupas - falou ele com uma calma assustadora. 


Olhei para Theo, ainda implorando por sua intervenção. Mas ele apenas fechou as mãos com força. Seu olhar era impenetrável. Recebi novamente um tapa, mais forte que o último. Meu corpo todo estremeceu. 


- Tire.As.Roupas. - disse novamente. 


Percebi que a ajuda de Theo jamais viria. Fitei meus pés, impedindo que Ashton visse minhas lágrimas. Tirei minhas roupas, ficando apenas de short e top. Eu me sentia humilhada e ameaçada. Ashton agarrou uma de minhas bochechas e balançou meu rosto. 


- Boa garota. Volte para sua fila. 


Mirei o rosto de Theo e deixei que ele visse uma lágrima escorregando pela minha bochecha machucada. Ele engoliu em seco e desviou o olhar. Covarde. Eu estava no inferno. 


Nenhum comentário:

Postar um comentário