A guerra já havia se instalado, as pessoas já não eram as mesmas, o mundo já não estava igual. Dois lados, duas opções. Vida ou morte. Inferno ou Paraíso. O céu agora estava cinza, parecia que ele também havia se juntado à guerra. Uma fumaça espessa estava sempre presente, tentando asfixiar tudo que ousasse ter vida. Eu, Kendra Mays, ousava ter vida.
As cidades estavam destruídas, as pessoas viviam em acampamentos especias. Todos esperavam pelo fim inevitável, mas as mães ainda tentavam confortar seus filhos.
Tudo era improvisado, ficávamos em uma parte mais escondida, onde os Venatores* não haviam olhado. Eles eram cruéis e impiedosos, matavam a todos que não pertencessem a seus clãs.
A noite já havia chegado, silenciosa e assustadora. Todos estavam dormindo em seus devidos alojamentos quando tudo começou. Gritos invadiram o calar da noite e fluíram pelas tênues tendas. O cheiro de sangue e os barulhos de metais se chocando contra os corpos era o que preenchia o ar.
Me levantei desajeitadamente, não conseguia pensar direito, lutar ou fugir? Se a morte era o meu destino então eu iria morrer de forma nobre. Apanhei minha faca de caça e saí com cautela. Estava tudo imerso em caos, cadáveres de conhecidos e desconhecidos caídos no chão, banhados em sangue, crianças correndo desesperadas, cabanas pegando fogo, pessoas de ambos os lados lutando.
Alguns metros à minha frente um Venator puxava, sem piedade, uma mulher grávida pelos cabelos negros, mirei no meio do peito do homem, onde eu sabia que um coração sem humanidade batia, e atirei a faca. Cinco segundos depois o mesmo homem jazia no chão, lutando em vão por um pouco de ar, e a mulher com uma criança no ventre já se afastava rumo à floresta.
Chegando perto do corpo desfalecido do homem consegui encontrar sua arma, que era muito melhor que a minha, uma espada longa e afiada, com os seguintes dizeres " Nossa terra. Nosso mundo. Vida longa aos caçadores", eles já haviam conseguido um grande grupo de seguidores, talvez nos observassem a dias, esperando o melhor momento para atacar.
Levantei a cabeça e olhei ao redor, uma fúria, que eu nem sabia que era capaz de sentir, entrou pelos meus poros e preencheu cada centímetro do meu corpo. Eu iria matá-los.
Corri com a espada no ar, acertando quem aparecesse na minha frente. Estava acabando com eles, eu iria aniquilá-los, eu iria... Uma dor que eu nunca sequer imaginei sentir me invadiu, fazendo com que eu caísse de joelhos no chão de terra batida. Olhei para o meu próprio peito, uma lâmina o atravessava, fitei o céu negro e lágrimas turvaram a minha visão. Eles me acertaram. Caí já sem nenhuma força, o chão pressionava minha bochecha molhada, o ar já se recusava a entrar. Eu estava morrendo. Mas iria morrer do jeito nobre que havia desejado. Eu iria para o outro lado. Iria para o meu paraíso.
*Caçador em latim
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